dorme a casa
dorme a crase
dorme a asa da borboleta.
numa metamorfose
tão exata
dorme a letra ilegível.
dorme a arroba e a rota,
o doze e a dúzia,
dorme o artigo indefinido.
dorme a água do aquário,
dorme o vaso sanitário,
e o vocabulário indizível.
dorme o fóssil pra lá de antigo,
o agora
e o minuto além.
dorme aquiles, o mito,
e aqueles que muitos
chamam ninguém.
dorme alice e o lustre,
a tinta e a paleta
neste verso dormidouro.
dorme o infinito sem conceito -
um dormir tão perfeito
que parece até poesia!
dorme a canção,
dorme a liturgia
dorme a cor e a alegoria.
dorme aquela velha alegria
que triste se apega
e no paradoxo não me larga.
dorme tudo:
desde o raso até o fundo.
como um defunto.
dorme o lodo na calçada,
a vaca atolada,
o outro lado da rua...
dorme a flor dilacerada
e mesmo o medo
dorme tranquilo.
dorme isto, essa e aquilo:
toda grama e
centímetro
a libra,
o zêlo
e o gemido desmedido.
dorme o esquilo
na paisagem americana e
a lua no céu de araraquara.
dorme o vento,
o assentamento
e a arara
o sono dos justos,
dormem marte e
o deserto do saara.
apenas eu insisto
diuturnamente
acordado
visto ser
impossível dormir
sem você ao meu lado.
09/12/2007
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4 comentários:
a libra,
o zêlo
e o gemido desmedido.
abraço !
Salve, salve, grande Marcos. Sigo acompanhando.
o poema é todo uma delícia, mas gostei particularmente desse verso:
"dorme a letra ilegível". não tem lógica, eu sei, mas tem muito espírito...
oxente, cadê os outros?
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